Acho, aliás, acho não, tenho certeza, que Legião mudou minha vida. Parece clichê usar essa expressão, mas mudar a vida é uma questão de adquirir novas formas de pensar, de levar os dias, de encarar a batalha do dia dia. Mudanças de paradigmas também...
Eu tinha meus 13 ou 14 anos, e foi cantarolando essas músicas diariamente com a Fran, minha eterna amiga de infância, meu espelho, influência e a quem devo boa parte do que sou hoje, que atravessei uma das fases mais difíceis e cheias de mudanças da minha vida.
A gente imprimia as letras, escrevia em nossos diários coletivos, gravava em fitas e escrevia em cadernos. Cada letra era milimetricamente analisada e identificada com nossas experiências, amores e dificuldades. E não era de Pais e Filhos ou Geração Coca-Cola que a gente falava. As letras politizadas eram fáceis demais de interpretar. Nosso repertório preferia "Giz", "Metal Contra as Nuvens", "Teatro dos Vampiros", "Os Anjos", "Quase sem Querer", "Vento no Litoral" entre tantas outras que tenho certeza que a Fran me ajudaria a listar em minutos sem nos esforçarmos muito em lembrar.
E olha que quase 10 anos se passaram...
As músicas embalavam nosso dia-dia, desde a oitava série em colégio público, até o segundo grau na escola técnica, na volta pra casa depois das aulas no ônibus, nas conversas infinitas ao telefone nas tardes chuvosas, nas cartas quilométricas... sempre tinha um espacinho pra um verso... uma reflexão...
"... eu rabisco um sol, que a chuva apagou..."
Frases assim, simples, despretensiosas, eram levadas a sério por nós... e tinham uma profundidade enorme que somente quem vivia no nosso mundo poderia entender.
Os anos foram passando, eu rabisquei muitos sóis depois de não somente chuvas, mas tempestades e furacões... as músicas do Legião foram aos poucos sendo meio esquecidas e deixadas de lado, mas sempre que as ouço, como nessa semana, as sensações de felicidade e nostalgia tomam conta de mim.
Acredito muito que é nessa idade que a gente começa a moldar nosso futuro, e o caráter que teremos na vida adulta. Começamos a nos cercar das pessoas que passarão a nos influenciar, e nossa personalidade começa a tomar forma, cor, cheiro...
Não foi uma banda que me fez crescer como ser humano, mas nessa época da vida, procuramos nos encaixar em tribos, onde nos aproximamos de pessoas que pensam parecido com nós, que agem de acordo com certos princípios... e mais do que melodia e ritmo, procuramos através da música um estilo de vida.
Hoje não tenho muito a ver com a pseudo-deprê que guia muitos sons do Legião. Mas aprendi a pensar, e a ter um quê de sensibilidade que nunca perdi.
Dessa forma, proponho uma reflexão: o que será que teria acontecido com nós e nossa personalidade se tivéssemos trocado os anos de embarque profundo nesse mundo legionário por pagodes e axés da vida?

Obrigada Fran :*
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